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O DESPERDÍCIO COMO REFLEXO DA PSEUDO-ABUNDÂNCIA
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![]() WANDERLEI PARÉ |
O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da
terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é
simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao
tecido, fará a si mesmo.
Chefe Seatle
Por que um texto que não tem nada a ver com tipografia ou produção gráfica? Talvez porque o editor esteja no meu pé, cobrando e eu sem tempo de pensar em algo interessante prá escrever. Ou, melhor ainda, pela indignação de ver tanta gente gastando o pouco que temos e reclamando que a qualidade é péssima. Na verdade, estou exercendo meu jus esperneandi.
Vivemos atualmente em uma sociedade com rápido acesso a todo tipo de serviço. Há uma grande facilidade na obtenção dos serviços elementares, tais como água, luz, comunicação (telefone, televisão, rádio, internet). Em alguns casos, não é preciso ter posses para entrar na fila e adquirir estes serviços. Basta ser esperto e se apossar do bem público, como é regularmente feito em invasões de terras urbanas.
Esta facilidade gera um falso sentimento de abundância. Se é fácil de conseguir, é porque existe muito. Na verdade, isto é uma pseudo-abundância. O que existe realmente é a facilidade de acesso. Hoje, não existe mais água no planeta do que no século passado ou do que no milênio passado. Não existe mais petróleo hoje, do que existia há cem anos.
Pode existir mais energia elétrica, pois temos cada vez mais usinas geradoras - apesar de que, nestes últimos tempos, não têm funcionado. Podemos ter mais informações, por termos meios de comunicação mais avançados. Mas nunca teremos mais recursos naturais. Quando o que existe atualmente estiver totalmente poluído, esgotado, extinto, não teremos onde ir buscar mais.
Há que se conscientizar hoje, para que exista esperança de futuro. Isso se já não for tarde demais.
Muita gente pensa que, quando acabar o petróleo, magicamente aparecerá uma nova fonte de energia fóssil. Mas o petróleo levou milhares de anos para se formar. Estamos acabando com ele em poucas décadas. Não haverá tempo hábil para a natureza produzir mais petróleo ou outra fonte qualquer.
Somos como o homem, durante uma chuva, abrigado em baixo de uma árvore. Ele pensa: Quando esta árvore estiver encharcada e não me abrigar mais, passarei para outra. O que ele não percebe é que todas as árvores estão sendo encharcadas ao mesmo tempo.
Assim, quando um recurso natural estiver extinto, os outros se extinguirão junto.
No ano de 1854, o presidente dos Estados Unidos fez a uma tribo indígena a proposta de comprar grande parte das suas terras, oferecendo, em contrapartida, a concessão de uma outra “reserva”.
O texto da resposta do Chefe Seatle, distribuído pela ONU (Programa para o Meio Ambiente), tem sido considerado através dos tempos, um dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos a respeito da defesa do meio ambiente.
É aqui inserido na íntegra, pois acreditamos que, apesar de ter sido escrita há mais de 100 anos, é cada vez mais atual.
O NOSSO IMENSO AMOR PELA NATUREZA
Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência do meu povo.
A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro, e o homem - todos pertencem a mesma família.
Portanto quando o grande chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. O Grande chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar a sua oferta de comprar a nossa terra. Mas isso não será fácil. Essa terra é sagrada para nós.
Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhe vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.
Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhe vendermos a terra, vocês devem lembrar e ensinar seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também.
E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue o seu caminho.
Deixa para traz os túmulos de seus antepassados e não se incomoda.
Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.
Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é selvagem e não compreenda.
Não há um lugar nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto.
Mas talvez porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de um lagoa, a noite.
Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira.
Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém.
O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro.
Se lhe vendermos nossa terra vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa saborear o vento adoçado das flores dos prados. Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, peço uma condição: o homem branco deve tratar os animais dessa terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos apenas para permanecermos vivos.
O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com seus irmãos.
Vocês devem ensinar as suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence a terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas, como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.
O que ocorrer com a terra recaíra sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.
Mesmo que o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos, e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso deus é o mesmo Deus. Vocês devem pensar que o possuem, como desejam possuir nossa terra, mas não é possível.
Ele é o Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e feri-la é desprezar seu criador.
Os brancos também passarão, talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas e, uma noite, serão sufocados pelos próprios dejetos.
Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força de Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnada do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.
Onde está o arvoredo? Desapareceu.
Onde esta a águia? Desapareceu.
E este é o final da vida e o início da sobrevivência.![]()
jus esperneandi: sagrado e inviolável direito que todos temos, de espernear e reclamar quando algo não nos parece bem.
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WANDERLEI PARÉ
Produtor Gráfico e Professor de Produção Gráfica na UNIP - Campinas |
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Coluna Tipos_e_Grafias de 1/11/2001 |
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